Entre Congonhas e Cincinnati Reflexões sobre originalidade, influência e a escrita da minha tese de doutorado

Entre maio e junho de 2025, escrevi um texto intitulado Nada é original? Reflexões sobre criatividade, livros e minha tese de doutorado.
Naquele momento, o núcleo da minha tese já existia, mas seu contorno teórico ainda estava em formação. Mais do que isso: talvez eu ainda estivesse tentando encontrar minha própria voz acadêmica.

Lembro perfeitamente do contexto em que aquele texto nasceu. Era uma sexta-feira no Aeroporto de Congonhas. Como quase sempre acontece naquele terminal paulistano ao final da semana, o local estava lotado. Executivos voltando para casa, famílias esperando embarques atrasados, passageiros caminhando apressados entre cafés, livrarias e portões de embarque.

Eu fazia parte daquela rotina aérea quase automática. Apesar de “morar” entre São Paulo e Recife, retornava todos os fins de semana para Recife, onde minha esposa me esperava.

Como de costume, passei pela livraria do aeroporto apenas para “olhar”. Naturalmente, terminei comprando mais um livro, embora minha coleção de obras ainda não lidas já fosse grande o suficiente para causar certo constrangimento intelectual.

O livro daquela vez era Roube como um artista, de Austin Kleon.

Sentei-me no café da Kopenhagen, pedi um café e comecei a folhear as primeiras páginas. Em poucos minutos, tive a sensação de que o livro dialogava diretamente com uma inquietação silenciosa que eu carregava naquele período.

Na época, eu estava começando a estruturar intelectualmente minha tese de doutorado e, como acontece com muitos pesquisadores, carregava uma preocupação constante: a obrigação de produzir algo “original”.

A palavra aparecia em todos os lugares. Os manuais acadêmicos falavam em “contribuição inédita”. Professores mencionavam “novas abordagens”. Colegas discutiam “novos paradigmas”. Aos poucos, sem perceber, eu havia transformado a ideia de originalidade em uma espécie de pressão permanente.

Como se uma tese precisasse nascer sem influência, sem tradição e sem diálogo com tudo aquilo que veio antes.

Foi então que encontrei, no livro de Austin Kleon, uma frase aparentemente simples:

“Nada é original.”

Logo depois, outra ideia me chamou atenção: quando alguém considera algo completamente original, normalmente isso apenas significa que desconhece as referências anteriores daquela criação.

Naquele momento, a leitura teve quase um efeito terapêutico.

Talvez porque eu estivesse começando a perceber que a criação intelectual não surge do vazio. Nenhum autor nasce isolado. Nenhuma teoria aparece espontaneamente no mundo jurídico como se tivesse sido produzida sem tradição, sem diálogo e sem influência.

Os próprios grandes autores do Direito demonstram isso.

Kelsen dialogava profundamente com Kant. Hart reorganizou parte do positivismo jurídico anterior. Dworkin construiu sua obra em tensão constante com Hart. Tercio Sampaio Ferraz Jr. certamente não surgiu separado da tradição filosófica de Miguel Reale. Luís Eduardo Schoueri dialoga com toda uma construção anterior do Direito Tributário.

Mesmo autores profundamente originais quase sempre começaram como leitores obsessivos de outros autores.

A própria ideia de originalidade absoluta talvez contradiga uma das metáforas mais importantes da história do conhecimento científico: a de que vemos mais longe justamente porque estamos sobre os ombros de gigantes.

Talvez Austin Kleon tivesse razão: originalidade não significa ausência de influência. Talvez ela surja justamente da maneira singular como cada pessoa reorganiza as influências que recebeu.

Lembro que, naquele primeiro texto, utilizei exemplos aparentemente distantes do universo jurídico.

Austin mencionava os Beatles, Kobe Bryant, Mark Twain e diversos artistas que começaram imitando aqueles que admiravam. Kobe Bryant dizia ter “roubado” movimentos de vários jogadores anteriores, adaptando-os ao próprio corpo e ao próprio estilo. Os Beatles começaram tocando músicas de outros artistas antes de se tornarem os Beatles.

Na época, aquilo me fez refletir sobre o próprio Direito.

Talvez muitos professores tenham começado tentando copiar alguém que admiravam. Talvez vários autores que hoje consideramos absolutamente singulares tenham surgido justamente desse processo de assimilação, repetição, adaptação e reconstrução.

Talvez toda formação intelectual seja, inicialmente, uma forma sofisticada de imitação.

Hoje releio aquele antigo texto em circunstâncias completamente diferentes.

Hoje, em Cincinnati, nos Estados Unidos, após mais de três meses mergulhado em uma rotina intensa de estudos, observo aquele antigo texto sob uma perspectiva completamente diferente. Vim para melhorar meu inglês, mas acabei encontrando algo maior do que imaginava inicialmente.

Longe da rotina brasileira, das audiências, das reuniões e da velocidade cotidiana da advocacia, tive tempo para algo que normalmente se torna raro na vida profissional: pensar com calma.

Passei a ler autores em inglês na língua original, revisitar livros antigos, reorganizar anotações da tese e, principalmente, observar de maneira mais crítica a própria vida acadêmica.

Minha qualificação de doutorado está marcada para o próximo dia 10 de junho. E talvez tenha sido justamente a proximidade desse momento que me fez revisitar certas angústias intelectuais que existiam quando comecei essa caminhada.

Curiosamente, o que me trouxe de volta àquele texto de 2025 não foi um livro, mas um pequeno ensaio publicado no Instagram, @abnerdalpiva.

O pequeno ensaio de Abner Dal Piva, publicado em formato de carrossel no Instagram sob o título Do Uso das Teorias Alheias, escrito em tom quase satírico, abordava a estranha tendência acadêmica de transformar autores em propriedades privadas e teorias em territórios cercados.

O texto ironizava professores que agem como administradores exclusivos de determinados autores, como se determinadas linhas teóricas possuíssem matrícula em cartório.

Ao ler aquilo, tive a sensação de revisitar uma inquietação antiga.

Talvez porque meu medo inicial da “falta de originalidade” não fosse apenas uma insegurança pessoal. Talvez ele também tivesse relação com a própria atmosfera simbólica da academia.

A universidade frequentemente afirma valorizar a circulação do conhecimento. E, de fato, valoriza. Mas, ao mesmo tempo, muitas vezes transforma autores em territórios simbólicos.

Determinados conceitos parecem possuir donos implícitos. Certas tradições teóricas tornam-se quase feudos intelectuais. Algumas referências passam a ser administradas como se dependessem de autorização informal para serem utilizadas.

O problema começa quando alguns intérpretes esquecem que os gigantes nunca lhes pertenceram.

Quanto mais avançava na escrita da minha tese, mais eu percebia algo curioso: pensar juridicamente não significa criar um novouniverso intelectual isolado do passado.

Pesquisar é, em grande medida, reorganizar.

É conectar autores que talvez nunca tenham sido colocados lado a lado. É identificar tensões que estavam invisíveis. É reinterpretar categorias antigas sob novos problemas. É construir novas perguntas para conceitos antigos.

Minha própria tese nasceu exatamente desse processo.

Ela não surgiu da pretensão de inventar um novo Direito Tributário. Surgiu da tentativa de reorganizar leituras, experiências profissionais, decisões judiciais, categorias dogmáticas e influências intelectuais acumuladas ao longo de décadas.

Talvez seja justamente isso que muitos pesquisadores descubram tarde demais: a verdadeira originalidade não está na ausência de influência, mas na forma como cada pessoa reorganiza influências diferentes dentro de uma experiência intelectual própria.

Hoje percebo que aquele advogado sentado na Kopenhagen de Congonhas, preocupado com a necessidade de “ser original”, talvez ainda não tivesse entendido completamente uma coisa simples: ninguém escreve sozinho.

Toda tese é, de algum modo, um grande diálogo.

Dialogamos com livros, professores, tribunais, experiências profissionais, autores estrangeiros, orientadores, críticas recebidas em bancas, conversas de corredor e até mesmo com inseguranças pessoais.

Escrever uma tese de doutorado talvez seja menos parecido com “inventar” algo e mais parecido com aprender a encontrar uma voz própria dentro de uma longa tradição de vozes anteriores.

E isso não reduz a originalidade do trabalho.

Ao contrário.

Talvez a verdadeira maturidade intelectual comece exatamente quando abandonamos a obsessão infantil de parecermos absolutamente inéditos.

Nenhum grande autor surgiu sem referências. Nenhuma tradição jurídica nasceu do zero. Nenhum pensamento relevante escapou completamente das influências do seu tempo.

A diferença está na maneira como cada autor reorganiza aquilo que recebeu.

Austin Kleon provavelmente tinha razão quando escreveu que nada é original.

Mas hoje, depois de atravessar a escrita da minha tese, acredito que exista uma continuação implícita naquela frase.

Nada é completamente original. Mas toda voz autenticamente construída se torna singular.

Talvez eu tenha vindo para Cincinnati estudar inglês e terminado encontrando algo mais importante: uma compreensão mais tranquila sobre influência, autoria e identidade intelectual.

E talvez aquele texto antigo, escrito impulsivamente entre Congonhas, Recife, cafés e livros não lidos, estivesse menos errado do que eu imaginava na época.

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